NADA ACONTECE POR ACASO
Durante a vida, tenho vindo a perceber em vários momentos que “nada acontece por acaso”.
Por que sim ou por que não, o que aconteceu teve um motivo, e um motivo suficiente para que eu entenda que assim que teria que ser (não que eu tenha que me conformar com isso, ou aceitar).
As nossas ações mudam o rumo do nosso destino e do destino de outras pessoas. Pois estava eu numa tarde triste de novembro de 2014, numa profunda introspeção sobre o que tinham sido as minhas opções de vida, quando tocou o telemóvel. Era uma pessoa que mal conhecia mas que sentimos mutuamente uma grande simpatia, e disse: “que se tinha lembrado de mim, porque teve conhecimento de projeto em Cabo Verde (na ilha da Boa Vista) que precisa de um professor, que achou ser a minha cara esse projeto, se podia dar o meu contato ao Óscar Ribeiro (presidente da Colcheia)”. Ao ouvir só pensei “abriu-se uma janela”, pois desde que ando nesta vida da Educação (há já quase 20 anos) sempre quis fazer algo do género, mas por motivos pessoais e profissionais fui protelando, ou seja, minutos antes de o telemóvel tocar estava exatamente a fazer um balanço do que fiz e deixei de fazer por opções que fui tomando… e de repente recebo uma chamada a falar de algo que sempre tive vontade de participar… Enfim… “Nada acontece por acaso!”.
Quando falei com o Óscar houve de imediato uma empatia telefónica, curiosamente até descobrimos que nascemos no mesmo dia e no mesmo ano (mais uma coincidência engraçada). No dia seguinte conhecemo-nos pessoalmente, e foi-me explicado o que era o Triplo Salto, o que se pretendia das aulas de Expressões que teria de administrar em conjunto com as educadoras e professoras de quatro Jardins de Infância (nos grupos de 4 e 5 anos) e, em cinco turmas de 1º Ano do 1º Ciclo, o que perfazia no total cerca de 300 alunos. Também acordamos todos os pormenores logísticos da ida para ilha da Boa Vista lecionar. Passados poucos dias estava aterrar na Boa Vista.
Cabo Verde é um arquipélago composto por dez ilhas, dessas já conhecia cinco (Sal, S. Vicente, Santo Antão, S. Tiago e Fogo). A Boa Vista ainda não. Aterrei num sábado nesta árida mas muito bonita ilha e, na segunda-feira, comecei a dar aulas.
Durante a primeira semana, num processo de conhecimento tanto das crianças como das colegas, iniciei as aulas com uma música sobre o “Bom Dia” ou “Boa Tarde” (consoante a hora da aula), acompanhado com gestos de Lingua Gestual Portuguesa, e terminei com uma avaliação (informal) dos alunos sobre a aula, uma salva de palmas para educadora/professora responsável da sala, acompanhada pela frase “um beijão no vosso coração”. Por opção de todas as crianças, estes rituais de início e terminus das minhas aulas mantêm-se. Se por acaso não os faço as crianças fazem por autoiniciativa… é muito reconfortante!
Trabalhar com estes meninos e com estas colegas tem sido uma experiência maravilhosa. Todos os dias aprendo muito, e essencialmente aprendo que se pode fazer uma “omelete enorme com tão poucos ovos”. São crianças que na grande maioria tem tão pouco a nível material, mas são muito criativas com todos os matérias que se lhes apresenta. Das colegas, e porque são todas mulheres, qualifico-as como “supermulheres”, pois dentro de uma sala com muitos alunos, no mínimo 30 e algumas com 50, fazem tudo e sem apoio de auxiliares. Os Jardins de Infância e/ou as Escolas do 1ºCiclo tem poucos recursos. Assim sendo, ando com uma mala (do tamanho de cabine) com os materiais escolhidos previamente, que necessito para lecionar as diversas aulas nesse dia (livros, tintas, pincéis, massa de farinha, jogos…). Percorro por Sal Rei diariamente uma média de 2 a 3 km a pé, acompanhada com a minha “maleta vermelha”, que é assim que comunidade (escolar e não escolar) lhe chama quando me vê passar. Aliás, já sabem que estou a passar só pelo barulho das rodas, vêm ter comigo e dizem “Vi logo que era a professora Sónia que vinha aí… ouvi a maleta vermelha”. Sal Rei é uma vila acolhedora e bastante calma e pode-se ir a pé a todo lado. A situação mais carinhosa que me acontece diariamente é andar pelas ruas desta vila e encontrar crianças a que dou aulas e outras a que não dou, mas que já me conhecem, e que vêm dar um grande abraço. Todas me chamam pelo meu nome… é uma riqueza de amor, de afeto, de calor humano, que recebo diariamente.
Por sua vez tenho tido desde do primeiro momento um enorme apoio da Colcheia. Poucos dias depois de ter conhecido a sua essência e filosofia, “vesti a camisola” (ainda em Portugal, antes de chegar à Boa Vista). Essencialmente com o Óscar, troco emails e temos reuniões online diariamente. Partilhamos ideias, materiais e orientações de como desenvolver aulas com qualidade.
Sei que a vida nos reserva surpresas boas e más, e que é muito difícil acreditar que não temos controlo sobre ela, mas sem dúvida que esta vinda para a Boa Vista para o projeto Triplo Salto tem sido das melhores experiências profissionais e pessoais que já vivenciei. O maior ensinamento que retiro é que não posso nem devo entregar-me a uma vida aborrecida, sem luta, dizer não ao destino. Devo lutar, batalhar, correr atrás, pois os melhores destinos estão nas mãos de pessoas que deram uma grande força para acontecer. Não esperar que a vida aconteça, fazer por acontecer! Porque nada, mesmo nada “acontece por acaso”.
Sónia











